Engenharia Genética - até onde nos pode levar?

Este blog foi criado no âmbito da disciplina de Biologia com o objectivo de promover discussões e debates sobre Engenharia Genética baseados nas informações à disposição no mesmo.

sexta-feira, Março 03, 2006

Contra ou a favor dos transgénicos?


Os transgénicos são um tema muito polémico que divide opiniões e não reúne um consenso entre aqueles que os estudam ou debruçam os seus trabalhos sobre eles. Para demonstrar a contrariedade de pontos de vista são aqui apresentadas duas entrevistas, a um engenheiro agrónomo e à coordenadora da campanha de biotecnologia do Greenpeace. A jornalista que realizou as entrevistas é de nacionalidade brasileira, pelo que as entrevistas aparecerão em português do Brasil.
A favor
"Não há como fugir dos transgênicos"
Em um país com um programa de erradicação da fome, como o Fome Zero, a proibição da utilização de transgênicos na produção agrícola é um contra-senso. Essa tecnologia deveria ser mais utilizada como forma de reduzir custos e aumentar a produção de alimentos. Essa é a avaliação de André Pessoa, engenheiro agrônomo da Agroconsult, consultoria especializada em agribussines, que é favorável ao plantio dos transgênicos no país.
AOL - Quais são os principais benefícios da utilização de transgênicos?André Pêssoa - O debate sobre a utilização de transgênicos no Brasil ainda é muito superficial. Aqui ainda está-se discutindo a primeira geração de produtos transgênicos, que fazem a produção crescer e reduzem os custos de plantio. Atualmente já existem outros avanços: há produtos que podem com melhor qualidade e com rendimento industrial maior. Também existem produtos com maior valor nutricional, que ganham mais vitaminas e outros nutrientes. Um exemplo desenvolvido nos Estados Unidos é um tomate com maior concentração de licopeno, substância que ajuda na prevenção de câncer de próstata. O custo desse tomate é até mais alto, mas seu consumo praticamente elimina o risco de desenvolver o câncer de próstata. Há também pesquisas de novos materiais de origem vegetal para fazer plástico, por exemplo, a partir da cana-de-açúcar, o que pode reduzir a utilização do petróleo como matéria-prima.
AOL - A utilização de transgênicos reduz custos para o produtor e para o consumidor final?André Pêssoa - A redução no custo de produção varia de caso a caso e ela pode chegar ao consumidor final. Em relação à soja, o custo de produção com a utilização de transgênicos tem uma redução de até 15%. O plantio de cada hectare de soja custa para o produtor entre US$ 400 e US$ 350. Utilizando sementes transgênicas, a economia é de US$ 40 a US$ 60 por hectare. A redução de custo para o produtor é óbvia. Se não houvesse benefícios, não veríamos agricultores brasileiros plantando transgênicos clandestinamente, correndo o risco de serem processados ou terem sua lavoura queimada por ativistas. É claro que há compensação. Eles não correriam esse risco em vão. O produtor responde à demanda do mercado. Estima-se que mais de 50% da produção de soja do Rio Grande do Sul é transgênica, o que equivale a cerca de 18,5% de toda a produção nacional. E não é só no Rio Grande do Sul que há plantio de transgênicos. Agricultores de outros estados brasileiros têm adquirido estas sementes do Paraguai e da Argentina.
AOL - O Brasil desenvolve tecnologia própria na área?André Pêssoa - Sim. Mas não pode aplicá-la porque a legislação não permite. Um bom exemplo é o feijão. Este é um produto consumido basicamente por brasileiros e nenhuma multinacional tem interesse em desenvolver pesquisas nessa área. Pois a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), uma empresa federal, tomou a dianteira e desenvolveu sementes transgênicas resistentes à praga chamada mosaico que atinge a lavoura de feijão e é a que causa maiores perdas.
AOL - Os transgênicos podem fazer surgir as "superpragas"?André Pêssoa - O argumento de que os transgênicos fazem surgir pragas superresistentes, não tem fundamento. A seleção natural é que faz os insetos e plantas daninhas tornarem-se mais resistentes. O agricultor precisa alternar o tipo de lavoura e os herbicidas para evitar que isso aconteça. Nos Estados Unidos, muita gente achou que transgênico era um negócio milagroso e não teve esse tipo de cuidado. Toda a tecnologia precisa ser bem utilizada para dar bons resultados.
AOL - Quais os impactos dos transgênicos ao meio ambiente? André Pêssoa - Qualquer atividade humana pode alterar um ecossistema. Ou seja, o risco de extinguir espécies com a utilização de transgênicos é o mesmo do que em qualquer outra forma de cultivo. Não dá para ter certezas absolutas, como exigem os ambientalistas. Nenhum cientista vai afirmar que os transgênicos não causam nenhum impacto. Sempre há a dúvida. Qualquer organismo vivo está em constante processo de evolução, existem variáveis que não são controladas pelos homens. E isso vale para qualquer atividade humana.
AOL - E em relação à saúde das pessoas?André Pêssoa - Nenhum produto ou tecnologia foi tão testado quanto os alimentos transgênicos. E essa é uma ação positiva dos ambientalistas, que exigiram os testes e as pesquisas. Portanto, pode-se dizer que eles são tão seguros quanto qualquer outro alimento. Só não dá para dizer que eles são melhores. Eu daria tranqüilamente a minha filha pequena uma papinha feita á base de soja transgênica.
AOL - Os ambientalistas argumentam que a tecnologia dos transgênicos será controlada por um número muito pequeno de empresas, o que resultará em monopólio no setor. Como o senhor vê essa questão?André Pêssoa - O Estado tem que lançar mão da legislação para regulamentar o mercado e evitar a formação de cartéis, como deve ser feito em qualquer outra área de produção. O aparato legal para isso existe, através de órgão como o CADE, o Ministério da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente, que devem fiscalizar e regulamentar o setor. Além disso, o Brasil é a vanguarda mundial em pesquisas para a agricultura em clima tropical. A Embrapa está mais do que apta a desenvolver tecnologia própria para o cultivo de trangênicos.
Contra
"Não há segurança em consumir transgênicos"
Perda da biodiversidade e pragas mais resistentes seriam efeitos nocivos que os transgênicos podem causar. Para as pessoas que os consumirem, esses alimentos geneticamente modificados poderiam causar alergias. Estes são alguns dos argumentos de especialistas contrários à utilização dos alimentos transgênicos no Brasil. Veja o que diz Mariana Paoli, coordenadora da campanha de biotecnologia do Greenpeace:
AOL - Por que a senhora é contra à utilização de transgênicos?Mariana Paoli - A primeira razão é a falta de conhecimento sobre uma tecnologia tão recente. Muita gente confunde transgenia com biotecnologia, que são coisas muito diferentes. Práticas como a fermentação da cerveja e o melhoramento genético, que são biotecnologia, são utilizadas há centenas de anos e são seguras. Já a engenharia genética, que pode misturar genes de animais, vegetais, bactérias, como acontece com os transgênicos, é uma tecnologia recente, utilizada a partir de 1995. Sabe-se hoje que um gene é responsável por uma série de funções em um organismo vivo. Por isso, não há como prever o que pode resultar de modificações genéticas nunca antes realizadas.
AOL - Quais são os efeitos negativos ao meio ambiente com utilização de transgênicos?Mariana Paoli - Já se sabe que os transgênicos causam perda de biodiversidade e fazem com que a utilização de agrotóxicos aumente, pois eles geram pragas cada vez mais resistentes. Um estudo da FAO, um órgão da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, revelou que 75% da biodiversidade dos vegetais já foi perdida. Os transgênicos irão acelerar esse processo e causar uma perda ainda maior.
AOL - E quais os riscos para as pessoas que consumirem alimentos transgênicos?Mariana Paoli - Pesquisas mostraram que a soja transgênica causa mais alergias e que uma espécie de milho transgênico, que possui um gene com resistência a antibióticos e dificulta o tratamento de doenças em quem o consome.
AOL - Então os transgênicos não são seguros?Mariana Paoli - Os cientistas até hoje não foram capazes de garantir segurança na utilização de transgênicos para o meio ambiente e para a saúde alimentar. Gasta-se muito mais verba para descobrir novos transgênicos do que com pesquisas para medir os impactos da engenharia genética sobre as pessoas e o ambiente. As conseqüências da utilização de transgênicos nunca foram estudadas profundamente. A ciência tem estado a serviço do mercado e só são realizadas pesquisas que possibilitem retorno financeiro a quem as subsidia. O desenvolvimento dessas tecnologias só tem em vista os ganhos no curto prazo. Os possíveis danos no médio e longo prazo são desconhecidos.
AOL - Mas o mercado já está aceitando produtos transgênicos?Mariana Paoli - A demanda do mercado internacional é por produtos que não sejam transgênicos. Essa é uma grande vantagem comparativa para o Brasil. A exportação de soja brasileira supera a americana, que já conta com 60% de produtos transgênicos. O maior importador dos grãos brasileiros é a União Européia. E essa tendência tem se mostrado crescente a cada novo resultado da balança comercial.
AOL - Com a legalização dos transgênicos, o que acontece com o mercado de sementes?Mariana Paoli - As sementes transgênicas são mais caras e, vai acabar acontecendo como nos Estados Unidos: o produtor que quiser plantar alimentos que não sejam geneticamente modificados terá dificuldade para comprar sementes tradicionais. O Brasil perde a vantagem competitiva que possui no mercado externo e tem que pagar royalties pela utilização da tecnologia internacional, o que encarece bastante a produção nacional.
AOL - Mas não há desenvolvimento de tecnologia nacional?Mariana Paoli - A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) tem um acordo com a Monsanto desde 1997. Essa parceria faz com que a tecnologia desenvolvida pela estatal brasileira e pela multinacional resulte também em pagamento de royalties a Monsanto. Isso significa que não teremos tecnologia 100% nacional na área, como muitos imaginam.
AOL - E a rotulagem indicando que se trata de um produto geneticamente modificado? O consumidor poderá escolher entre um transgênico ou um tradicional?Mariana Paoli - Uma pesquisa de opinião nacional do Ibope sobre transgênicos, constatou que 74% da população prefere consumir um alimento convencional a um transgênico. Portanto, as empresas farão de tudo para burlar a lei e não rotular produtos que contenham transgênicos. Se indicarem que se trata de um transgênico, elas sabem que venderão menos.