Engenharia Genética - até onde nos pode levar?

Este blog foi criado no âmbito da disciplina de Biologia com o objectivo de promover discussões e debates sobre Engenharia Genética baseados nas informações à disposição no mesmo.

terça-feira, março 28, 2006

Tomate de longa duração


O tomate modificado geneticamente para durar mais tempo foi o primeiro produto alimentar geneticamente modificado que os consumidores tiveram a possibilidade de adquirir. Este tomate foi lançado em 1994 no mercado dos EUA. É geneticamente modificado para se manter firme e fresco durante muito tempo, o que acontece porque, em consequência da modificação genética, o tomate produz uma quantidade inferior da substância que causa a sua degradação.
Vantagens:
- Uma vez que o tomate se mantém fresco durante mais tempo, pode deixar-se amadurecer ao sol antes de ser colhido, o que se traduz num tomate de melhor sabor;
- O tomate geneticamente modificado para maior duração aguenta um período de transporte mais prolongado, o que significa que os horticultores podem evitar colher o tomate ainda verde como forma de tolerar o transporte;
- Os produtores têm a vantagem de o tomate poder ser colhido todo ao mesmo tempo.
Desvantagens:
- O primeiro tomate geneticamente modificado desenvolvido por cientistas contém genes que o tornam resistente aos antibióticos. Os médicos e veterinários utilizam os antibióticos para combater as infecções. Se os genes transplantados se alastrarem aos animais e às pessoas, os médicos poderão vir a ter dificuldade em combater as doenças infecciosas. Hoje em dia, os cientistas podem modificar geneticamente o tomate sem introduzir genes para a resistência aos antibióticos.
Morangos, ananases, pimentos e bananas são outros exemplos de produtos alimentares geneticamente modificados pelos cientistas para se manterem frescos durante mais tempo.

segunda-feira, março 27, 2006

Colza resistente aos pesticidas

Os cientistas transferiram para a planta da colza um gene que lhe permite resistir a um certo pesticida. O gene é retirado de uma bactéria com capacidade de resistir aos pesticidas. Quando o agricultor pulveriza a cultura de colza com pesticidas, pode destruir a maior parte das pestes sem modificar as plantas de colza geneticamente modificadas.

Vantagens:
- O agricultor pode ter uma colheita maior porque é mais fácil combater as pestes.
- Em alguns casos, o agricultor pode utilizar um pesticida mais compatível com o ambiente.
- O agricultor poderá igualmente proteger o ambiente utilizando menos pesticida.
Desvantagens:
- Os genes da cultura de colza geneticamente modificada podem ser transferidos para as pestes. As pestes poderão tornar-se resistentes ao pesticida e a pulverização tornar-se inútil.
- A colza pode polinizar as ervas daninhas - por exemplo o navew, que se encontra nos campos de colza. Quando a colza poliniza, os seus genes são transferidos para o navew. Esta adquire então resistência aos pesticidas.

quinta-feira, março 23, 2006

Monsanto volta com a palavra atrás

A gigante brasileira da biotecnologia Monsanto quebrou a promessa feita em 1999 e anunciou que vai desenvolver a tecnologia Terminator para culturas não alimentícias como o algodão, tabaco, culturas farmacêuticas e grama. Há sete anos a multinacional havia declarado publicamente que não iria comercializar essa tecnologia, que produz plantas geneticamente modificadas para produzirem sementes estéreis. As sementes Terminator fazem parte das chamadas tecnologias genéticas de restrição de uso, que são uma forma de garantir a cobrança dos royalties e impedir a reprodução de sementes patenteadas, forçando os agricultores a comprar sementes todos os anos.
A mudança de postura da empresa Monsanto indica um acirramento do confronto com os movimentos de agricultura familiar, ambientalistas e populações indígenas. A entidade ambientalista Greenpeace faz parte de uma aliança global com mais de 300 organizações que exigem a manutenção da moratória. As sementes estéreis ameaçam a biodiversidade e podem destruir o modo de vida e cultura de 1,4 bilhões de pessoas ao redor do mundo que dependem da produção própria de sementes.

OGM prejudicam a saúde

Em Maio deste ano, a Comissão Europeia suspendeu a homologação de novas variedades de milho manipulado, na sequência da publicação de um artigo na revista "Nature", em que investigadores norte-americanos revelavam que o pólen de milho transgénico matou quase metade das borboletas-monarca de uma experiência. Não se trata de um facto isolado. É frequentemente citado, por exemplo, o caso de uma experiência escocesa em que joaninhas alimentadas com afídios que tinham crescido com batatas transgénicas, viram a sua média de vida reduzida a metade, além de terem posto menos ovos do que o normal. Numa outra experiência em que ratos foram alimentados ao longo de dez dias directamente com batatas transgénicas cozidas, as autópsias revelaram alterações altamente significativas do peso dos animais e alterações frequentes de órgãos ligados ao sistema imunitário, como o baço e o timo.Em termos de saúde - e sem dúvida, para nós, essa é uma questão fundamental - são muitas as dúvidas. Há exemplos de falhas graves - claro que pouco divulgados. Num documento conjunto da Quercus, Associação Nacional de Conservação da Natureza e Deco, Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, refere-se, nomeadamente, o caso de uma doença raríssima do sistema imunitário que atingiu vários milhares de pessoas, nos EUA, porque consumiram um suplemento alimentar produzido por uma empresa japonesa a partir de uma bactéria transgénica. Morreram 37.A possibilidade de reacções alérgicas ao emprego de transgénicos na alimentação ou mesmo do aparecimento de doenças novas, são preocupações frequentemente referidas.

quarta-feira, março 22, 2006

Existem transgénicos à venda em Portugal?

Sim, existem vários nos nossos supermercados. Mas quais? Aqui se encontra a grande dificuldade existente actualmente... a falta de rotulagem. Apesar de obrigatória por lei desde 1998 para produtos com modificação genética superior a 1%, é largamente desrespeitada e ambígua, não esclarecendo os consumidores nem assegurando o seu direito à escolha.
Sabe-se que já existem plantações de transgénicos em Portugal, tanto para fins comerciais (alimentação e rações de gado) como para testes. Mas o problema mais grave reside no facto de não existir fiscalização adequada para detecção de culturas transgénicas, sendo por isso impossível dizer qual a sua localização e a área que ocupam.

terça-feira, março 21, 2006

Os transgénicos podem ser uma boa opção na luta mundial contra a fome?

O problema actual da fome não resulta da falta de produtos alimentares - eles existem até em excesso! Se não vejamos o que acontece em vários países, incluindo o nosso, nos quais são desperdiçadas todos os anos toneladas de produtos agrícolas por falta de escoamento. A maior parte destes produtos não é sequer aproveitada para combater a fome mundial!
Em 1998, numa conferência das Nações Unidas, cientistas africanos manifestaram-se contra a campanha promocional de transgénicos da Monsanto que usa fotografias de crianças esfomeadas com o título “Deixem a colheita começar”. Os cientistas, representantes de países afectados pela pobreza e pela fome, revelaram que as tecnologias genéticas vão minar as capacidades das nações para se alimentarem, destruindo a diversidade natural já estabelecida, o conhecimento local e os sistemas de agricultura sustentável.
De facto, a engenharia genética pode até conduzir ao aumento da fome. As multinacionais biotecnológicas como a Monsanto e a Novartis, entre outras, produziram sementes estéreis através da denominada “tecnologia de extermínio” que impedem os agricultores de guardar sementes para a sementeira ou colheita seguinte – pondo em risco, desta forma, a base da segurança alimentar mundial.

segunda-feira, março 20, 2006

Riscos dos OGM

A tecnologia OGM é uma tecnologia repleta de riscos. Nós não temos controlo total sobre ela. A transferência de genes pode processar-se mal e serem inseridas características não desejadas. Pode também ocorrer mudança de expressão de genes. Por exemplo, numa variedade OGM de batata, foi introduzido um gene que induzia a produção de um toxina nas folhas da cultura de modo a fornecer resistência a ataques por determinados insectos. Esse gene acabou por passar a ter expressão também nos tubérculos, produzindo as mesmas toxinas e originando um problema de toxidade para a saúde humana e animal.
Outro problema de toxidade em saúde pública ocorreu com uma variedade de milho OGM designado “Starlink”. Também aqui, foi inserido um gene para conferir resistência a uma praga (uma lagarta que ataca as raízes do milho). Esse gene mostrou-se prejudicial à saúde humana causando reacções alérgicas! Foi imediatamente suspensa a comercialização do milho Starlink para consumo humano e ficou apenas legislado para consumo animal. Mas caiu no esquecimento o pormenor de que os seres humanos também se alimentam de carne, e as reacções alérgicas permanecerem. O milho Starlink foi então retirado definitivamente do mercado.
Os organismos OGM podem também criar problemas de resistência a antibióticos nos animais e seres humanos. Genes resistentes a antibióticos são por vezes usados em transferência genética. Se as bactérias que vivem no nosso organismo adquirirem esse ADN, podem tornar-se elas próprias resistentes aos antibióticos! Isto significa que ao ficarmos doentes por infecção bacteriana, o nosso organismo vai deixar de responder positivamente aos antibióticos receitados pelo médico. Ou seja, uma simples infecção pode tornar-se num grande pesadelo!
Poluição ambiental é outra das consequências dos organismos OGM. Ainda referindo o caso do milho Starlink, depois de ter sido apenas cultivado nos Estados Unidos da América numa área de 0.4% da área total de milho, apareceu em cerca de 10% de todos os lotes de milho testado. O transgene apareceu mais tarde noutras 80 variedades de milho e também noutros países como foi o caso do México, onde o cultivo OGM era proibido. Mais uma vez nos deparamos com uma situação de perda de controlo sobre tecnologia OGM. As barreiras de distância impostas entre campos OGM não funcionam. O pólen das plantas pode viajar até 180 km!
A poluição ambiental é também causada pela resistência a herbicidas. As plantas OGM resistentes a herbicidas fazem com que os cuidados de aplicação dos mesmo sejam reduzidos visto que a planta não sofre toxidade. Pode aplicar-se mais herbicida e mais vezes. Este facto deu origem às chamadas “super-infestantes” devido a posterior resistência induzida nas próprias plantas vizinhas. Contribui também para o aumento do risco da contaminação dos lençóis de água, para a destruição da fauna e de organismos úteis (joaninhas, abelhas, etc).
Por fim, é importante nunca esquecer o impacto sócio-económico que esta tecnologia poderá vir a ter. A dependência dos agricultores para com a industria da biotecnologia poderá tornar-se irreversível. As sementes são vendidas com contractos que impedem o agricultor de multiplicar a sua própria semente ou de comprar qualquer herbicida a outras indústrias. Está a gerar-se um novo monopólio das grandes corporações. Não existe nenhum seguro que cubra efeitos nefastos.

quinta-feira, março 16, 2006

Activistas penduram faixa no Cristo


A 16 de Março deste ano, activistas do Greenpeace colocaram uma faixa de 5 x 8 metros na mão da estátua do Cristo Redentor, no Corcovado, Brasil, de modo a chamar a atenção dos governos para a alarmante perda de biodiversidade do planeta e os riscos para a segurança ambiental representada pelos transgénicos. A mensagem: “O futuro do planeta está em suas mãos” foi endereçada aos representantes de governos de todo o mundo reunidos em Curitiba para discutir medidas de proteção às diferentes formas de vida na Terra.A capital do Paraná sediou duas reuniões da ONU: a 3a Reunião das Partes do Protocolo de Cartagena e a 8a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CDB). Representantes de 132 países signatários do Protocolo de Cartagena discutem a biossegurança global relacionada ao transporte internacional de OVMs (organismos vivos modificados). A reunião da CDB, que volta ao Brasil 14 anos depois de sua criação na Eco-92, envolve delegações governamentais de 188 países, que vão discutir até o dia 31 medidas necessárias para barrar a alarmante perda de biodiversidade no planeta até 2010.
Para ocoordenador da campanha Amazónia, do Greenpeace, o mundo não pode esperar outros 14 anos até que os governos decidam fazer o que prometeram em 1992, no Rio. “Se a extinção em massa de animais e plantas ao redor do mundo não for barrada imediatamente, as futuras gerações não terão chances de se beneficiarem de um planeta saudável”, disse Adario. “Florestas como a Amazónia estão sendo destruídas numa escala assustadora. A Amazónia tem pressa”.

sexta-feira, março 03, 2006

Contra ou a favor dos transgénicos?


Os transgénicos são um tema muito polémico que divide opiniões e não reúne um consenso entre aqueles que os estudam ou debruçam os seus trabalhos sobre eles. Para demonstrar a contrariedade de pontos de vista são aqui apresentadas duas entrevistas, a um engenheiro agrónomo e à coordenadora da campanha de biotecnologia do Greenpeace. A jornalista que realizou as entrevistas é de nacionalidade brasileira, pelo que as entrevistas aparecerão em português do Brasil.
A favor
"Não há como fugir dos transgênicos"
Em um país com um programa de erradicação da fome, como o Fome Zero, a proibição da utilização de transgênicos na produção agrícola é um contra-senso. Essa tecnologia deveria ser mais utilizada como forma de reduzir custos e aumentar a produção de alimentos. Essa é a avaliação de André Pessoa, engenheiro agrônomo da Agroconsult, consultoria especializada em agribussines, que é favorável ao plantio dos transgênicos no país.
AOL - Quais são os principais benefícios da utilização de transgênicos?André Pêssoa - O debate sobre a utilização de transgênicos no Brasil ainda é muito superficial. Aqui ainda está-se discutindo a primeira geração de produtos transgênicos, que fazem a produção crescer e reduzem os custos de plantio. Atualmente já existem outros avanços: há produtos que podem com melhor qualidade e com rendimento industrial maior. Também existem produtos com maior valor nutricional, que ganham mais vitaminas e outros nutrientes. Um exemplo desenvolvido nos Estados Unidos é um tomate com maior concentração de licopeno, substância que ajuda na prevenção de câncer de próstata. O custo desse tomate é até mais alto, mas seu consumo praticamente elimina o risco de desenvolver o câncer de próstata. Há também pesquisas de novos materiais de origem vegetal para fazer plástico, por exemplo, a partir da cana-de-açúcar, o que pode reduzir a utilização do petróleo como matéria-prima.
AOL - A utilização de transgênicos reduz custos para o produtor e para o consumidor final?André Pêssoa - A redução no custo de produção varia de caso a caso e ela pode chegar ao consumidor final. Em relação à soja, o custo de produção com a utilização de transgênicos tem uma redução de até 15%. O plantio de cada hectare de soja custa para o produtor entre US$ 400 e US$ 350. Utilizando sementes transgênicas, a economia é de US$ 40 a US$ 60 por hectare. A redução de custo para o produtor é óbvia. Se não houvesse benefícios, não veríamos agricultores brasileiros plantando transgênicos clandestinamente, correndo o risco de serem processados ou terem sua lavoura queimada por ativistas. É claro que há compensação. Eles não correriam esse risco em vão. O produtor responde à demanda do mercado. Estima-se que mais de 50% da produção de soja do Rio Grande do Sul é transgênica, o que equivale a cerca de 18,5% de toda a produção nacional. E não é só no Rio Grande do Sul que há plantio de transgênicos. Agricultores de outros estados brasileiros têm adquirido estas sementes do Paraguai e da Argentina.
AOL - O Brasil desenvolve tecnologia própria na área?André Pêssoa - Sim. Mas não pode aplicá-la porque a legislação não permite. Um bom exemplo é o feijão. Este é um produto consumido basicamente por brasileiros e nenhuma multinacional tem interesse em desenvolver pesquisas nessa área. Pois a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), uma empresa federal, tomou a dianteira e desenvolveu sementes transgênicas resistentes à praga chamada mosaico que atinge a lavoura de feijão e é a que causa maiores perdas.
AOL - Os transgênicos podem fazer surgir as "superpragas"?André Pêssoa - O argumento de que os transgênicos fazem surgir pragas superresistentes, não tem fundamento. A seleção natural é que faz os insetos e plantas daninhas tornarem-se mais resistentes. O agricultor precisa alternar o tipo de lavoura e os herbicidas para evitar que isso aconteça. Nos Estados Unidos, muita gente achou que transgênico era um negócio milagroso e não teve esse tipo de cuidado. Toda a tecnologia precisa ser bem utilizada para dar bons resultados.
AOL - Quais os impactos dos transgênicos ao meio ambiente? André Pêssoa - Qualquer atividade humana pode alterar um ecossistema. Ou seja, o risco de extinguir espécies com a utilização de transgênicos é o mesmo do que em qualquer outra forma de cultivo. Não dá para ter certezas absolutas, como exigem os ambientalistas. Nenhum cientista vai afirmar que os transgênicos não causam nenhum impacto. Sempre há a dúvida. Qualquer organismo vivo está em constante processo de evolução, existem variáveis que não são controladas pelos homens. E isso vale para qualquer atividade humana.
AOL - E em relação à saúde das pessoas?André Pêssoa - Nenhum produto ou tecnologia foi tão testado quanto os alimentos transgênicos. E essa é uma ação positiva dos ambientalistas, que exigiram os testes e as pesquisas. Portanto, pode-se dizer que eles são tão seguros quanto qualquer outro alimento. Só não dá para dizer que eles são melhores. Eu daria tranqüilamente a minha filha pequena uma papinha feita á base de soja transgênica.
AOL - Os ambientalistas argumentam que a tecnologia dos transgênicos será controlada por um número muito pequeno de empresas, o que resultará em monopólio no setor. Como o senhor vê essa questão?André Pêssoa - O Estado tem que lançar mão da legislação para regulamentar o mercado e evitar a formação de cartéis, como deve ser feito em qualquer outra área de produção. O aparato legal para isso existe, através de órgão como o CADE, o Ministério da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente, que devem fiscalizar e regulamentar o setor. Além disso, o Brasil é a vanguarda mundial em pesquisas para a agricultura em clima tropical. A Embrapa está mais do que apta a desenvolver tecnologia própria para o cultivo de trangênicos.
Contra
"Não há segurança em consumir transgênicos"
Perda da biodiversidade e pragas mais resistentes seriam efeitos nocivos que os transgênicos podem causar. Para as pessoas que os consumirem, esses alimentos geneticamente modificados poderiam causar alergias. Estes são alguns dos argumentos de especialistas contrários à utilização dos alimentos transgênicos no Brasil. Veja o que diz Mariana Paoli, coordenadora da campanha de biotecnologia do Greenpeace:
AOL - Por que a senhora é contra à utilização de transgênicos?Mariana Paoli - A primeira razão é a falta de conhecimento sobre uma tecnologia tão recente. Muita gente confunde transgenia com biotecnologia, que são coisas muito diferentes. Práticas como a fermentação da cerveja e o melhoramento genético, que são biotecnologia, são utilizadas há centenas de anos e são seguras. Já a engenharia genética, que pode misturar genes de animais, vegetais, bactérias, como acontece com os transgênicos, é uma tecnologia recente, utilizada a partir de 1995. Sabe-se hoje que um gene é responsável por uma série de funções em um organismo vivo. Por isso, não há como prever o que pode resultar de modificações genéticas nunca antes realizadas.
AOL - Quais são os efeitos negativos ao meio ambiente com utilização de transgênicos?Mariana Paoli - Já se sabe que os transgênicos causam perda de biodiversidade e fazem com que a utilização de agrotóxicos aumente, pois eles geram pragas cada vez mais resistentes. Um estudo da FAO, um órgão da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, revelou que 75% da biodiversidade dos vegetais já foi perdida. Os transgênicos irão acelerar esse processo e causar uma perda ainda maior.
AOL - E quais os riscos para as pessoas que consumirem alimentos transgênicos?Mariana Paoli - Pesquisas mostraram que a soja transgênica causa mais alergias e que uma espécie de milho transgênico, que possui um gene com resistência a antibióticos e dificulta o tratamento de doenças em quem o consome.
AOL - Então os transgênicos não são seguros?Mariana Paoli - Os cientistas até hoje não foram capazes de garantir segurança na utilização de transgênicos para o meio ambiente e para a saúde alimentar. Gasta-se muito mais verba para descobrir novos transgênicos do que com pesquisas para medir os impactos da engenharia genética sobre as pessoas e o ambiente. As conseqüências da utilização de transgênicos nunca foram estudadas profundamente. A ciência tem estado a serviço do mercado e só são realizadas pesquisas que possibilitem retorno financeiro a quem as subsidia. O desenvolvimento dessas tecnologias só tem em vista os ganhos no curto prazo. Os possíveis danos no médio e longo prazo são desconhecidos.
AOL - Mas o mercado já está aceitando produtos transgênicos?Mariana Paoli - A demanda do mercado internacional é por produtos que não sejam transgênicos. Essa é uma grande vantagem comparativa para o Brasil. A exportação de soja brasileira supera a americana, que já conta com 60% de produtos transgênicos. O maior importador dos grãos brasileiros é a União Européia. E essa tendência tem se mostrado crescente a cada novo resultado da balança comercial.
AOL - Com a legalização dos transgênicos, o que acontece com o mercado de sementes?Mariana Paoli - As sementes transgênicas são mais caras e, vai acabar acontecendo como nos Estados Unidos: o produtor que quiser plantar alimentos que não sejam geneticamente modificados terá dificuldade para comprar sementes tradicionais. O Brasil perde a vantagem competitiva que possui no mercado externo e tem que pagar royalties pela utilização da tecnologia internacional, o que encarece bastante a produção nacional.
AOL - Mas não há desenvolvimento de tecnologia nacional?Mariana Paoli - A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) tem um acordo com a Monsanto desde 1997. Essa parceria faz com que a tecnologia desenvolvida pela estatal brasileira e pela multinacional resulte também em pagamento de royalties a Monsanto. Isso significa que não teremos tecnologia 100% nacional na área, como muitos imaginam.
AOL - E a rotulagem indicando que se trata de um produto geneticamente modificado? O consumidor poderá escolher entre um transgênico ou um tradicional?Mariana Paoli - Uma pesquisa de opinião nacional do Ibope sobre transgênicos, constatou que 74% da população prefere consumir um alimento convencional a um transgênico. Portanto, as empresas farão de tudo para burlar a lei e não rotular produtos que contenham transgênicos. Se indicarem que se trata de um transgênico, elas sabem que venderão menos.